Entre o mar e o vespeiro
O que o caso Hiran revela quando um corpo negro e gay decide disputar o rap

A última vez que vi Hiran ao vivo foi no 2 de fevereiro.
Salvador dava sequência ao seu calendário de festas populares que antecedem o Carnaval. Quando eu cheguei, por volta das 10h, o Rio Vermelho já formava uma imagem que me é muito familiar: as ruas tomadas por pessoas vestidas de azul e branco, em sua maioria, numa mistura de fé, calor, cerveja, flor, suor e alfazema. E, obviamente, muita música.
No meio da maior celebração do país dedicada a Iemanjá, o Festival Oferendas armou pelo 15º ano consecutivo sua varanda de música no Lálá e trouxe Hiran, Majur e Nara Couto como parte da programação daquele dia. Tudo isso bem em frente ao mar da praia do Rio Vermelho, de onde saem os barcos com os balaios cheios de presentes para saudar as muitas faces das águas: Oguntê, Marabô, Caiala, Sobá, Oloxum, Inaê, Janaína e Iemanjá. Odoyá!
Lembro de olhar para o palco, em frente ao qual estive praticamente em todos os anos, e pensar no quanto aquela imagem fazia sentido. Hiran diante do mar de Iemanjá. Um corpo negro e gay ocupando, com naturalidade e sem pedir licença, um espaço de atualização da ancestralidade.
A cena de Hiran no palco, cantando sobre sua fé e sua identidade, acertava em cheio, pois as festas populares sempre foram espaços para extrapolar as convenções e gerar invenções estéticas. E algumas cenas, quando acertam em cheio, parecem formular uma pergunta antes mesmo de a gente saber qual é.
Talvez por isso o que aconteceu depois soe tão revelador
No dia 17 de abril, Hiran lançou Imundo, disco de 13 faixas que marca seu retorno mais direto ao rap. Entre elas está Rap Não, faixa em que confronta frontalmente a homofobia e o boicote que sofreu dentro do gênero. A reação veio quase como uma confirmação do próprio argumento do álbum: mensagens de ódio, xingamentos homofóbicos, ameaças de morte.
Em entrevista ao g1, Hiran resumiu o mecanismo com uma frase precisa: “a reação violenta de parte do público confirmou tudo o que eu estou denunciando”. Disse também que procurou proteção espiritual:
“Meu assessor avisou que eu estava mexendo em um vespeiro, mas não imaginei a proporção. Fui ao meu pai de santo pedir proteção, fechar meu corpo. Ainda estou com medo”.
Há um contraste forte: do acolhimento no 2 de fevereiro ao vespeiro no lançamento do álbum. E talvez o mais importante seja não tratar essa passagem como uma contradição acidental, mas como as duas reações fazem parte da mesma cidade, da mesma cena e, principalmente, da mesma indústria musical.
É aqui que o caso Hiran deixa de ser apenas um episódio triste de violência nas redes sociais e vira uma chave de leitura.
Um homem negro gay no rap incomoda não apesar do rap ser um território negro, mas também porque essa negritude muitas vezes foi organizada ali em termos de performance de masculinidade. O rap brasileiro nasceu como uma linguagem de denúncia, memória e afirmação negra. Mas isso não impediu que, dentro dele, se naturalizassem códigos muito estreitos sobre o que pode ser entendido como força, verdade, rua e legitimidade.
Mesmo acusado de dividir a luta, quando denuncia a homofobia dentro do rap, o que Hiran faz, na verdade, é expor que o movimento seleciona, em silêncio, quem protege. E o silêncio, nesse caso, é um dispositivo de ordem.
A hostilidade diz muito sobre isso. Ela mostra que a solidariedade racial não é automática. Ela pode parar na porta da sexualidade. Pode abraçar o corpo negro desde que ele não desorganize o script da virilidade. Pode defender a favela, a rua, o povo, a quebrada, e ainda assim produzir um veto quando esse mesmo corpo negro aparece dissidente, bicha, indomável. Hiran incomoda porque desarma uma ficção confortável: a de que toda identidade oprimida é necessariamente capaz de acolher suas próprias diferenças.
Também há um dado eloquente no percurso de validação desse artista. Ao falar do novo disco, Hiran lembrou que foi abraçado por nomes como Caetano Veloso, Ivete Sangalo, Russo Passapusso, BNegão, Vandal e Carlinhos Brown, enquanto a cena do rap seguiu lhe fechando portas, alegando que “o público não ia entender”. É uma porta giratória perversa: no rap, ele é excessivamente gay; fora dele, vira muitas vezes o rapper queer aceitável, o signo de diversidade.
Isso que estou descrevendo tem nome: interseccionalidade
Mas, aqui, o nome importa menos do que a função. Importa perceber como raça, sexualidade, território e mercado não atuam em fileiras separadas. Eles se sobrepõem, se corrigem, se reforçam, se embaralham. Kimberlé Crenshaw deu nome a essa chave no fim dos anos 1980. Antes dela, Lélia Gonzalez já mostrava, no Brasil, que racismo e sexismo deveriam ser pensados conjuntamente. O caso Hiran ajuda a ver o mesmo movimento: para entendermos o ataque, precisamos olhar para a homofobia, para o racismo e para a lógica musical. É nessa encruzilhada que a violência opera.
Talvez por isso a resposta de Hiran seja tão forte. Ao agradecer o apoio e cobrar espaço na mídia, nos festivais e nos circuitos de debate, ele obriga o campo musical a sair da zona confortável do aplauso abstrato e entrar no terreno mais concreto da redistribuição de escuta, palco e legitimidade.
Volto, então, ao 2 de fevereiro.
Volto à varanda. Ao sal no ar. Ao rumor da rua. À cidade entregue à Rainha do Mar. Volto à imagem de Hiran no palco, inteiro, sem se partir em pedaços para caber melhor. E acho que é essa imagem que fica me rondando desde então.
Quanto custa existir inteiro na música brasileira? Para um corpo negro e gay seguir no palco, a indústria ainda exige fragmentação? Primeiro a negritude, depois a sexualidade. Primeiro o mercado, depois a verdade. Primeiro a aceitação, depois a voz.
Mas e se a questão, agora, for justamente recusar a ordem desses “depois”?
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Sobre o autor
Marcelo Argôlo é jornalista e pesquisador musical. Mestre em Comunicação, é autor do livro Pop Negro SSA. Escreve sobre as encruzilhadas entre música negra baiana, território e mídia.

